“Steampunk” é um sub-gênero da ficção científica e da fantasia de caráter retrô-futurista, ou seja, ambientado num passado futurístico que não aconteceu. Um passado onde a tecnologia mecânica e a vapor teria se desenvolvido de modo assombroso, criando assim uma realidade alternativa. Esse passado da nossa História, onde se baseia a maior parte dos cenários de steampunk, é a Era Vitoriana.
O termo “steampunk” foi cunhado a partir do livro “The Difference Engine”, de William Gibson e Bruce Sterling. Para quem não sabe, William Gibson é considerado o pai de outro sub-gênero da ficção-científica, o cyberpunk. Da analogia de que a tecnologia do microchip estaria para o cyberpunk assim como a tecnologia a vapor estaria para a Era Vitoriana, surgiu o termo “steampunk” (steam = vapor).
A verdadeira Era Vitoriana
Palco da maior parte dos cenários steampunks, a Era Vitoriana marca o apogeu do Império Britânico, um império que se espalhava por todas as partes do mundo ou, como se dizia “o sol nunca se põe no Império Britânico”. O mundo vivia sob a égide da “Pax Britanica”, a versão “chá das cinco” do final do século XIX da “Pax Romana” do Imperador Otávio Augusto. A Rainha Vitória era a versão inglesa e de saias do grande imperador romano, a grande mãe de todos os ingleses.
Se por um lado a era do reinado da Rainha Vitória foi caracterizada por um extremo conservadorismo cultural e social, por outro foi a época de uma série de invenções e avanços que mudaram o mundo como a luz elétrica, o telégrafo, o telefone, o fonógrafo e a refrigeração, entre outros. Todas essas invenções eram parte de um processo maior: a segunda etapa da Revolução Industrial. O mundo mudou, literalmente, a todo vapor.
Mas, toda essa mudança tecnológica, não necessariamente foi boa, ou melhor, não necessariamente foi para todos: a industrialização gerou uma massa de trabalhadores desempregados que tiveram suas funções substituídas por máquinas. A política imperialista e colonialista das grandes potências européias procurou absorver esse contingente excedente criado pela substituição na indústria do homem pela máquina, através do exército, que era um instrumento de intervenção política ao redor do mundo. Outros buscaram como saída a migração para a América.
Os que não foram absorvidos pelos exércitos ou migraram para o Novo Mundo, acabaram participando de movimentos sociais como o da quebra das máquinas, o por condições mais humanas de trabalho (a exploração do trabalho humano não era muito melhor do que a escravidão) e o sufrágio universal, nessa época um direito ainda a ser conquistado pelas camadas populares, mas apenas pelos homens.
Ou seja, a Era Vitoriana não foi exatamente a era luminosa e bela que muitos pensam ter sido.
O Steampunk
A idéia geral do steampunk é a de passado alternativo ao nosso, onde a tecnologia mecânica a vapor teria possibilitado a criação de máquinas que na verdade nunca existiram e nem poderiam ter existido. “Engenhocas” análogas a que temos hoje em dia com o nosso nível tecnológico como tanques de guerra, submarinos, máquinas de guerra voadoras, robôs, etc. e as mudanças na sociedade causadas pelo impacto desses assombrosos engenhos.
Em conjunto com isso, há outros aspectos que fazem parte do arco que engloba o gênero steampunk, como o horror gótico do final do século XIX, a fantasia e mesmo a literatura aventuresca que serviu como base das novelas de “pulp fiction” das primeiras décadas do século XX.
Os Clássicos
Júlio Verne e H.G. Wells não são apenas os exemplos clássicos da literatura steampunk: eles são os pais de toda Ficção Científica. Uma vez que eles viveram e escreveram suas obras durante a era Vitoriana, a ficção científica dos dois grandes mestres se baseava na ciência e tecnologia de seu tempo, ou seja, steampunk. Na época, os livros de Verne e Wells foram chamados de “romance científico”.
De Júlio Verne temos, entre outros, “20.000 Léguas Submarinas”, “Robur, O Conquistador”, “Da Terra à Lua”, “Viagem ao Centro da Terra”, “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, “Cinco Semanas Num Balão”, “Senhor do Mundo” e “A Ilha Misteriosa”.

Mais sombrio que Verne, H.G. Wells (Herbert George) escreveu “A Máquina do Tempo”, “Os Primeiros Homens na Lua”, “A Guerra dos Mundos”, “O Homem Invisível” e “A Ilha do Dr. Moreau”.
O horror gótico do steampunk está presente em clássicos como “Frankenstein” de Mary Shelly, “Drácula” de Bram Stoker, “O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde” de Robert Louis Stevenson e os contos de Edgar Allan Poe.
A literatura aventuresca mostra exploradores britânicos (o arquétipo europeu do século XIX do “Grande Caçador Branco”) indo a lugares estranhos e exóticos nos confins do mundo em busca de fama, fortuna e aventura. Esse tipo de literatura acabou servindo de certa forma para justificar a política imperialista e colonialista das potências européias. Temos como expoentes dela toda a obra de Edgar Rice Burroughs (principalmente a série de livros do personagem Tarzan) e de Sir Henry Rider Haggard (principalmente a série de livros do personagem Allan Quatermain); Sir Arthur Conan Doyle e o seu “O Mundo Perdido” e Rudyard Kipling com “Kim”, “O Homem que queria ser rei” e o “Livro da Selva”.
Os novos Steampunks
Atualmente encontramos o gênero steampunk em várias mídias. Além da ficção científica e do horror, o steampunk também se associa à fantasia como é o caso do anime “Escaflowne” e de alguns jogos de videogame da série “Final Fantasy”. Falando em animes, também são steampunks alguns dos episódios de “Robot Carnival” e, naturalmente, uma das obras-primas de Hayao Miyazaki, “Laputa: Castle in the Sky”.
Existem vários bons livros contemporâneos do gênero steampunk, a maioria ainda não disponível em português, como os três romances da “The Steampunk Trilogy” de Paul DiFilippo. Já traduzidos temos os primeiros livros da fantástica série “Dinotopia” de James Gurney.
Nas HQs, “As aventuras da Liga Extraordinária” é uma leitura obrigatória. O mestre Alan Moore nos maravilha utilizando toda a galeria dos personagens clássicos da literatura vitoriana/steampunk.
No cinema “As Loucas Aventuras de James West” com Will Smith não fez jus à memorável série da televisão “James West”. Mais à altura dela esteve a série “As Aventuras de Brisco County Jr.”, com Bruce Campbell que passou por aqui no canal Warner.
No RPG
O primeiro RPG steampunk foi o “Space: 1889? de Frank Chadwick (uma clara citação à série de televisão inglesa “Espaço: 1999?), editado originalmente pela GDW em 1988 e atualmente pela Heliograph. No cenário desse RPG, Thomas Edison desenvolveu um sistema de propulsão que permite viajar aos outros planetas do Sistema Solar e assim o Império Britânico instala colônias em Vênus, em Marte e em Luna (Lua). Contudo, nem todos os Príncipes Marcianos toleram a presença dos britânicos em seu planeta… “Space: 1889? é uma paródia ao Colonialismo britânico do século XIX.
Da mesma atual editora do “Space 1889?, temos o “Forgotten Futures: The Scientific Romance Role Playing Game” de Marcus L. Rowland, lançado em 1999. Ele é voltado para criação de aventuras em vários cenários clássicos do steampunk da era Vitoriana, tendo regras que cobrem desde máquinas fantasiosas, passando por espiritualismo até dinossauros.
Ganhador do mais importante prêmio do RPG americano, o “Origins Award” de 2000, como melhor suplemento de RPG, o GURPS Steampunk - assim como os melhores suplementos da Steve Jackson Games - é um livro precioso para os amantes do gênero, mesmo para aqueles que não gostam do sistema GURPS. Escrito por William H. Stoddard, o GURPS Steampunk cobre tanto a parte histórica real, quanto a parte ficcional, ou seja, tudo. E quando digo “tudo” entenda como tudo mesmo: o GURPS Steampunk possui toda informação relacionada ao gênero.
Na onda do Sistema D20, a Privateer Press lançou o cenário “The Iron Kingdoms”. Criado por Brian Snoddy e Matt Staroscik, é um cenário de fantasia clássico, mas onde máquinas a vapor e pólvora são tão comuns quanto espadas e magia. “The Iron Kingdoms” está sendo aclamada como uma das melhores ambientações lançadas para o sistema D20/D&D.
Por aqui foi lançado o “Fantapunk” de Marcos Archanjo, para o sistema d20. Precedido pelo romance “O Clube das Sombras”, saiba mais sobre o Fantapunk aqui mesmo na Rede RPG e baixe a aventura “Fogo Ligeiro”.
Por outro lado a Devir nos brindou com o melhor RPG de steampunk e um dos melhores RPG de todos os tempos: Castelo Falkenstein.
Criado por Mike Pondsmith e editado originalmente pela R. Talsorian, Castelo Falkenstein é narrado por Tom Olan, um designer de jogos de computadores do nosso mundo que é magicamente raptado para um mundo paralelo ao nosso. Um mundo que está vivendo uma Era Vitoriana bem diferente do que foi a nossa, pois lá existe magia, uma tecnologia a vapor assombrosa, fadas, dragões e os mais famosos personagens da ficção são pessoas reais (Capitão Nemo, O Homem Invisível, Dr. Frankenstein, Robur, etc…). É a Nova Europa da Idade do Vapor.
Além da soberba qualidade em todos os aspectos - mantida também na versão brasileira feita pela Devir - Castelo Falkenstein é um RPG inovador, tanto no cenário, quanto no sistema que usa cartas comuns de baralho ao invés de dados para a resolução das ações.
Alternativamente, você pode usar o sistema de Falkenstein para jogar em qualquer variante de cenário steampunk, apesar de considerarmos excepcional o cenário da Nova Europa. O sistema dele é perfeito mesmo para jogos mais realistas, ambientados na Era Vitoriana histórica. Que tal um jogo baseado na HQ “Do Inferno” de Alan Moore?
Da mesma forma como a Loja Steampunk do Rio Grande do Sul procura divulgar o conhecimento deste grandioso gênero, existem outras Lojas pelo Brasil – e pelo mundo - que se engajam no mesmo propósito: divulgar e promover.
Dentre elas, as que fazem parte do Conselho Steampunk (Movimento brasileiro em prol do Steampunk) são as de São Paulo - http://sp.steampunk.com.br/ e Rio de Janeiro - http://rj.steampunk.com.br//
O Site do Conselho Steampunk é www.steampunk.com.br
Fazendo um trocadilho, você tem todas as cartas à mão. Portanto acenda a caldeira e embarque para os mundos fantásticos do gênero steampunk: Vá a todo o vapor!
(adaptado de REDERPG)